O 1° de Abril, quarta-feira passada, foi apenas mais um dia, igual a qualquer outro. Aliás tem sido assim nos últimos anos e me pergunto se acabou a centenária tradição do Dia da Mentira que teria se iniciado em 1654 na França.
Ninguém me pregou uma peça neste ano, nem nos passados também pelo que me lembro. Não vi ninguém brincando com isso e nem sendo alvo dessa brincadeira. Nem mesmo minha neta de 12 anos entrou na onda. Aliás, nem sei se ela sabe dessa tradição.
Alice Munro, em seu conto “Poderes”, que se passa no interior do Canadá em 1927, narra num trecho de uma história longa uma adolescente fingindo uma terrível dor de garganta e quando o médico vai enfiar o palito em sua boca, para abaixar sua língua, ela solta: 1° de Abrilllll.
Como editor-chefe do jornal Cruzeiro do Sul, em 1999, fiz a capa do jornal daquele dia apenas com notícias mentirosas, similares às verdadeiras que estavam na página 2. Outros jornais no Brasil e no mundo fizeram o mesmo e o Jornal da Band, da TV Bandeirantes, veio a Sorocaba me entrevistar a respeito.
Quando eu era criança, o 1° de Abril era um dia inteiro de brincadeiras com todos enganando alguém ou sendo enganados.
Os anos recentes, sem brincadeiras no Dia da Mentira, são também os mesmos anos do advento dessa praga das Notícias Falsas (Faje News) que assolam redes sociais como WhatsApp fazendo os ingênuos, e os nem tanto, os menos letrados, e os nem tanto, a compartilharem mentiras com a certeza de que repassam verdades.
É um momento absolutamente triste da história da humanidade e distópico também. Demorou para as pessoas, algumas delas, muitas delas, deixassem, por exemplo, de acreditar que a Terra, o nosso Planeta, é plano e tivessem a compreensão de que ele é um globo esférico. Teve a cloroquina, na pandemia, como se esquecer disso? São centenas, talvez milhares, de absurdos propagados como verdade.
Certamente, apenas estou especulando, essa onda ajudou a acabar com a brincadeira de 1° de Abril. Há outras razões, como o pensamento mais literal dos adolescentes de hoje que não têm o domínio sobre as metáforas, por exemplo.
No futuro talvez ninguém mais se lembre que a humanidade, por quase meio século, brincou de Dia da Mentira e quando se lembrar terão dificuldade de entender a razão de se brincar assim, pregando peças nos outros. Porque a brincadeira de mentir era para sair da realidade que era falar a verdade. Na prática a mentira existia, mas a meta era alcançar a verdade. Hoje, há a prática da mentira e ninguém quer saber a verdade se contentando com narrativas. Conheço quem viva cegamente crendo na narrativa. É uma espécie de seita. Assusta. E isola, cada vez mais, quem mantém algum tipo de lucidez.
A verdade é que a verdade assusta. A verdade do ambiente privado apavora quando tornada pública. Assim se tornou preferível, então, a mentira como prática e meta, não como brincadeira.


