Invasores de nossa realidade

Pelo menos 2 milhões de famílias brasileiras tiveram a renda reduzida e caíram para a extrema pobreza entre janeiro de 2019 e junho deste ano, segundo os dados são do Cadastro Único do governo federal, o chamado CadÚnico, que aponta para um aumento mês a mês de pessoas na miséria desde novembro de 2020. A informação foi a manchete do portal Uol de domingo passado desde manhã até o final da tarde.

Eu não sabia desses dados, mas senti essa realidade enquanto comia o meu quibe semanal na banca da Meire na feira da Vila Jardine em Sorocaba. Não era a moça com o netinho em casa esperando que eu lhe pague por um pastel, não era o homem sem uma orelha, não eram os habituais sem-teto ou morador de rua dos domingos na feira. Eram muito mais pessoas. A feira estava com menos freguesia, menos barracas e muito mais gente pedindo ou esperando a feira acabar para ficarem com as sobras de frutas e legumes.

Quando abaixei minha cabeça para dar uma bocada no meu quibe, um homem sujo se ajoelhou no chão e botou sua cabeça dentro do latão de lixo da banca que estava a centímetros do meu pé. Sem me olhar, ele saiu praguejando numa língua cheia de sotaque onde eu consegui entender que ele disse algo do tipo: não tem nada nesta desgraceira aqui.

Fui até o Delta Café, no Campolim, onde me sento aos domingos para ler e ver. E me deparo com essa afirmação: “(…) olhava os sem-teto do bairro como intrusos da sua realidade, evitando ao máximo qualquer contato visual com eles pois tinha convicção de que lhe pediriam algo assim que os olhares se cruzassem, assim que seu olhar validasse a existência deles (…)”. Página 74, livro “O Riso dos Ratos”, edição 2021, de Joca Reiners Terron.

E os números do CadÚnico, publicados pela Folha de S.Paulo, me explicam minha percepção: Em dezembro de 2018, durante o governo Michel Temer (MDB), eram 12,7 milhões na pobreza extrema. Dois anos e meio depois e com Jair Bolsonaro na Presidência, esse número chegou a 14,7 milhões em junho de 2021.

E a reportagem me explica que família em extrema pobreza é aquela com renda per capita de até R$ 89 mensais, ou seja, são pessoas que vivem nas ruas ou em barracos e enfrentam insegurança alimentar recorrente.

Então vejo o resultado das eleições deste final de semana na Alemanha e Portugal, onde os candidatos da chamada social-democracia se deram bem melhor do que os candidatos liberais, e penso que esse dado pode ser um indicativo de como corrigir essa realidade alarmante dos invasores de nossa realidade.

Se o Brasil escolher se mantiver na extrema-direita na eleição do ano que vem, a tendência é de dados muito piores no CadÚnico no futuro próximo, o que na prática significa dizer que eles vão sair das tocas onde hoje ainda conseguem alguma proteína para se manterem vivos e estarão cada vez mais ao alcance de nossos olhos. Que não seja necessário este tamanho de desgraça para que a gente olhe e valide a existência deles.

A foto que ilustra essa postagem é de domingo à noite na Catedral onde as pessoas que precisam buscam o lanche ali oferecido.

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