A manhã da última segunda-feira, o dia seguinte ao Domingo de Ramos e a anterior a Sexta-feira Santa e ao Domingo de Páscoa, estava tediosa como todas as outras manhãs de segunda-feira quando eu, a caminho de minha hora de musculação na academia, me deparo com uma discussão na calçada que piso toda vez que subo a rua Miranda Azevedo, mediada por quatro soldados da Polícia Militar que chegaram até ali em duas viaturas, entre dois homens adultos.
Um homem magro, careca por ter raspado seu cabelo e não porque eles caíram, com uma tatuagem que vinha de suas costas, subiam por sua nuca e alcançava toda sua cabeça e parte do rosto, perto das orelhas, carregando uma menina no colo, de no máximo 1 ano e meio, cercado por uma moça bastante jovem, não mais que 20 anos, dizia a outro homem: Você é mau-caráter. Vocé é sem vergonha. Você não é homem. Você não tem honra. Você é um canalha. Era uma metralhadora verbal. Numa das pausas em seu xingamento ele também disse: Eu tenho 44 anos, três filhos e nunca atrasei um dia o pagamento da pensão alimentícia deles. E você, é um lixo, incapaz de pagar em dia o que é sua obrigação.
O homem que ouvia os xingos estava na porta do escritório onde ele trabalha. Ele vestia paletó, mas não usava gravata embora estivesse de camisa social. Seu cabelo, vasto, era penteado com gel e sua barba, aparada, havia sido desenhada no barbeiro. Havia um carro Audi, modelo A4, no recuo do escritório. Num dado momento ele tirou o paletó, dobrou e colocou no banco de trás do Audi. Ele estava com o rosto vermelho e não sei se de raiva pelos xingamentos que ouvia ou por não conseguir dizer nada. Ele parecia que ia explodir quando partiu para cima do careca tatuado.
Não aconteceu nada. Um dos soldados, o mais baixo deles e o mais atarracado, entrou na frente dele e com a mão em seu peito disse: Para trás.
O careca desafiou: Solta esse vagabundo. Deixa esse mau-caráter comigo.
Neste momento ouvi a moça dizer ao careca tatuado: Pára pai.
O careca ignorou a filha e disse ao homem que havia tirado o paletó: Se você quiser ver sua filha novamente, você vai ter que se entender comigo.
Um outro policial lhe aconselhou e ele acatou o conselho: Agora é melhor ir embora. Ele deu a neta para sua filha e lhe disse: Toma sua filha. Eles entraram no carro e se foram.
O homem que havia tirado o paletó, ainda bastante nervoso, gago, disse: Ele veio aqui só pra me fazer passar vergonha. Eu sou gente do bem. Vou à igreja…
Eu, que assisti a isso tudo, segui minha caminhada e pensando como os sinais todos estão trocados. Até muito recentemente, e ainda hoje, muita gente pensa assim: Tatuagem é coisa de bandido, gente ruim, e paletó, cabelo bem penteado e barba bem feita, coisas de gente honesta e correta. E o que essa cena mostrou? O contrário. O homem de bem, que ora, e usa paletó não só atrasa ao máximo o pagamento da pensão da filha quanto, pior, não é pai. Nem sequer olhava para sua filha no colo do avô que, na prática, é a referência masculina desse bebê.
Eu conheço empresário que não dá emprego a quem se tatua, mas não se importa em oferecer trabalho a quem usa paletó e tem cabelo e barba bem tratados porque, simplesmente, vive no preconceito que moldou a atual sociedade.
Que bafafá como este de segunda-feira ajude a educar a nova geração sobre quem são verdadeiramente do bem e que o bem é a prática do bom caráter. Não importa a roupa que você use ou as marcas que imponha à sua pele. A aparência não garante nada sobre a verdadeira essência humana.


