William, um homem na faixa dos 45 anos, carregando uma lata de tinta vazia, adaptada a uma espécie de bolsa, contendo ferramentas e um cabo elétrico grosso de cor preta, já estava dentro do meu apartamento, onde ele foi chamado para fazer o que não faço: Trocar a resistência do chuveiro, que não esquenta mais a água do banho, e a junção do boxe do banheiro com o chão, cujo silicone ressecou, e a água escapa molhando todo o restante do banheiro.
Então, após dez passos, ele parou e estancado no meio da sala disse: Que paraíso! E ele não olhava para mim, mas mantinha o rosto e os olhos voltado para a estante de livros que tenho ali.
Pensei, neste breve intervalo, que outros pedreiros e afins já estiveram no meu apartamento e nenhum notou os livros ali, ao menos nenhum fez comentário. E senti uma alegria com a alegria daquele homem em minha sala e então aquele breve instante de mútua contemplação foi interrompido pelo William, antes que eu pudesse ter dito qualquer coisa, antes mesmo que eu pudesse ter pensado que seu nome não havia sido escolhido ao acaso, mas fosse uma homenagem ao bardo, William Shakespeare.
Então ele disse, num misto de exclamação e interrogação: O senhor sabe que eu nunca li um livro na minha vida!? Nem uma página. Esse negócio de ler não é para mim.
E antes que eu tivesse a oportunidade de processar informações tão conflitantes (Paraíso x Livros x Não Ler) ele foi logo esclarecendo. Esse é o paraíso para minha caçula. Não sei o que aconteceu com a bichinha, mas ela devora livros lendo todos os dias. Ela ia adorar isso aqui (no caso minha estante de livros).
Fui insípido, confesso. Tive uma reação completamente tosca. Consegui apenas dizer: Que bom. Muito dessa reação foi responsabilidade do William, pois ele falou da filha e não estava interessado na minha resposta e se dirigiu ao banheiro como se ele já soubesse onde ficava e de fato sabia pois assim que terminou seu serviço ele me questionou: O senhor sabia que eu trabalhei na construção desse prédio? Meu pai foi mestre de obra aqui e eu fui seu ajudante.
E minha reação foi patética: Que ótimo!
William tinha que recolocar na parede, sobre o fogão da cozinha, o exaustor que eu havia fixado e caiu. Ele olhou e disse: Que serviço porco! Ele se referia a quem, anteriormente, havia fixado o tal aparelho. Claro que ele não sabia que eu era o autor do serviço porco e achei melhor deixá-lo sozinho para fazer um serviço limpo e decente.
Então tive o insight de dar um dos meus livros à Maria Eduarda, a filha do William, e escrevi uma dedicatória falando que, como ela, eu era um leitor. E quando eu dei o livro ao William para ele levar a sua filha ele exclamou/perguntou novamente, só que dessa vez numa tom que misturou curiosidade e surpresa: O senhor escreveu todas essas palavras, como faz isso!?
Dessa vez me superei na estupidez e respondi com um riso idiota e: Não sei. William, riu, e me disse, também rindo: Ahhh, sabe sim. O senhor está escondendo o jogo. E ele próprio, que havia iniciado aquela conversa, encerrou do modo mais prático: Ficou 350 tudo.
Então, pensei, eu preciso vender sete livros para pagar essa conta. E pensei também: Mas para quem? E ao fechar a porta, quando o William já estava dentro do elevador, pensei no poema de John Milton, Paraíso Perdido, narrando a queda do homem do plano divino ao terreno e lembrei que ele foi escrito em 1667, apenas 13 anos depois da fundação da cidade onde moro, que é de 1654. E que nenhuma dessas datas e fatos se conectam, a não ser numa cabeça vazia, como a minha.


