Porquê é diferente a morte de PG

Antes de mais nada quero diz que nunca me conectei com Paulo Gustavo ou suas personagens, especialmente a dona Hermínda. Nunca vi até o fim, apenas trechinhos dos seus filmes, incluindo as três versões de “Minha Mãe é uma Peça…” Também não acompanhava como capítulo de novela o noticiário de sua internação. E, por isso tudo, levei um susto quando na noite de terça-feira, quando anunciada a sua morte devido às complicações do Coronavírus, os portais Estadão e Uol (que acompanho três, quatro, cinco vezes ao dia) terem colocado em letras garrafais que ele havia morrido.

A mensagem nem sempre está no conteúdo das palavras, mas na sua forma (Se alguém tem interesse neste assunto, sugiro que leia meu livro “Em Branco Não Sai – Uma leitura semiótica do Jornal Impresso Diário”, que é minha dissertação de mestrado) e no mesmo instante me perguntei: o que levou dois portais (depois abri o Facebook e praticamente todo mundo compartilhava a morte dele) a darem tal destaque. Minha primeira resposta foi de que a morte de Paulo Gustavo é o que mais likes recebia e, audiência, dita a importância do que é publicado. Mas logo disse a mim mesmo: isso não é suficiente, é preciso que também seja importante o fato.

Então, passei a me perguntar qual a importância da morte de Paulo Gustavo? E minha primeira resposta foi de que ele é amado por seu público e, também, por pessoas que de vez em quando ligam a TV a cabo ou vão ao cinema. Mas isso me parecia ainda insuficiente e logo passei a entender que Paulo Gustavo assumiu a liderança de lutas ainda tabus em nossa sociedade como ser casado com outro homem e ter dois filhos, como gastar parte da sua fortuna ajudando anonimamente entidades de diversos cunhos religiosos, por ter comprado meio milhão de reais em oxigênio aos hospitais de Manaus quando as pessoas morriam asfixiadas pela incompetência do presidente Jair e seu ministro Pazzuello. Por fim, pela última postagem de Paulo Gustavo antes de ser intubado: cadê a vacina? Sim, aquela que o presidente Jair recusou em outubro do ano passado, no momento em que batia o pé em ser negacionista.

E tive certeza dessa liderança de Paulo Gustavo, no dia seguinte, quando o presidente Jair resolveu se condoer e seu exército virtual passou a externar solidariedade pela morte de Paulo Gustavo. Fato que nunca havia ocorrido, nem quando morreu por coronavírus um senador da república (Major Olímpio). Esse teatro do presidente não bastou para que o Twitter e Facebook registrassem recordes de responsabilizações pela morte de Paulo Gustavo à má política do presidente Jair no combate a esta pandemia.

Como escreveu o psiquiatra Daniel Martins no portal Estadão: até as 400 e tantas mil mortes de brasileiros o Brasil vivia coletivamente em luto, mas a morte de Paulo Gustavo transformou esse sentimento, pela primeira vez desde o início da pandemia, em luto coletivo, ou seja, todos os brasileiros, simultaneamente, sentiram a perda de uma pessoa. O que levou à comoção.

Está aí porquê a morte de PG é diferente. Ele era amado por fazer algo tão necessário neste momento, que é o de arrancar (é essa a expressão real) um riso de nossa cara ao mesmo tempo que incorporou o que toda mãe brasileira tem: o fato de não ficar quieta e se meter na vida de quem ela ama. Antes de ser internado e depois de morrer, Paulo Gustavo foi a voz mais forte do Brasil alertando para o genocídio pelo qual estamos passando. Que a sua morte não seja em vão!

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