Quando o trânsito é o espelho

No final da tarde desta quarta-feira, saindo do estacionamento do supermercado Tauste pela rua lateral, não pela avenida General Carneiro, três carros estavam na minha frente. Peguei o celular. E o motorista atrás de mim começou a me xingar até que eu entendi que ele protestava pelo fato de eu ter pego o celular. 

Eu disse que tinha carros na minha frente. Ele disse que não tinha. É uma rampa e ele não tinha como ver.

Então puxei o breque de mão e saí do carro. Em pé comecei a lhe fazer perguntas: 1) Você está nervoso? 2) Está com problemas em casa? 3) Qual é o seu nome? E afirmações: 4) Você é mau amado. 5) Se tivesse com as contas em dia não estaria enchendo o saco de ninguém…

Então fui despertado de minha ira pelas buzinas dos carros que ficaram impedidos, por mim, de sair do supermercado. 

Já na rua, esperei o motorista, ele dirigia um Corolla preto, daqueles antigos, parelhar comigo. Então pude ouvir, com clareza, ele dizendo que eu sou um mau motorista, que não posso pegar o celular nem por um minuto. Ele não me xingou, mas eu sim lhe dizendo: E você é um imbecil… só pode ser idiota para ser juiz do trânsito. 

Então ele virou à esquerda e eu segui reto. 

Percebi que eu estava tremendo, muito irritado. Minha cabeça a mil por hora. Fui me acalmando e uma vergonha tomou conta de mim. Vergonha por ter xingado, por provocar, por não ter convidado aquele cara para tomar um café ou uísque, cerveja, enfim, feito amizade com ele. Seria mais digno de minha parte. Essa seria a melhor resposta. Mas como na tirinha do Calvin, que ilustra essa postagem, na hora não tive esse sentimento. À beira de fazer 55 anos, me comporto como o menino de 6 anos da tirinha, alter-ego de Calvino. E me pergunto se aquele motorista não foi, naquele momento, apenas o espelho do que eu tenho vivido. E me respondo: as perguntas e afirmações que lhe fiz dizem  respeito somente a mim mesmo. Inclusive saber o nome dele!

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