Raul Marcelo minimiza o efeito “guerra santa” e credita sua derrota à presença de Renato Amary e do governador na campanha de Crespo e à injusta associação de que o PSOL e PT são parceiros. Tom da entrevista me faz entender que ele já pensa em 2020

raullllO deputado estadual Raul Marcelo, derrotado no 2º turno da eleição para prefeito de Sorocaba, convidado da coluna O Deda questão no Jornal da Ipanema (FM 91,1Mhz) na manhã de hoje, me surpreendeu com sua análise sobre o resultado. Para Raul, aborto, drogas e campanha dos evangélicos classificando a candidatura dele como sendo do demônio (aliás, tema de postagem do promotor de justiça Jorge Marum, de Sorocaba, dizendo que Sorocaba se livrou do ovo da serpente (Raul Marcelo) ao eleger Crespo) não foram determinantes para a sua derrota. “Esse foco foi residual”, sentenciou.

Não tenho essa compreensão. Aliás, a entrevista de Crespo, já como prefeito eleito, deixa evidente que estes temas são importantes para ele destacar sobre quem é Raul Marcelo. E que Raul foi derrotado agora, em 2016, mas terá de ser permanentemente combatido nos anos seguintes.

Aborto e guerra santa

Provocado logo na primeira pergunta da entrevista se era a favor do aborto, Raul Marcelo (que já havia sido alvo da mesma pergunta na própria rádio Ipanema durante a campanha) voltou a deixar no ar sua posição. Eu disse que eu sou frontalmente contra o aborto, mas não poderia ser hipócrita em fazer de conta que ele não existe e, que desde o que ficou registrado em Machado de Assis, quem tem dinheiro faz aborto em médico particular, esconde a gravidez da filha em convento e doa o recém-nascido, manda a filha para o exterior…. mas que ao pobre cabe ter o filho indesejado ou abortar numa clínica clandestina colocando em risco a saúde da mulher e do bebê do ponto de vista físico e causando com certeza sequelas psicológicas para toda uma vida. Nem assim Raul disse se compartilhava integralmente dessa posição comigo. Afirmei que ele não se posiciona com firmeza sobre este tema. Ele preferiu afirmar que alguns boatos circularam nas redes sociais sobre o aborto: “Vou dizer para você: pegaram um vídeo meu e editaram este vídeo. Estava explicando como funciona o aborto nos Estados Unidos e em outros países”, informou. “Eu, Raul Marcelo, não sou favorável [ao aborto]. Pessoalmente, sou contra. Mas deveríamos discutir melhor este tema”. Sobre o PSOL, o candidato falou que o seu partido ainda não tem opinião formada sobre o assunto. Sobre o papel dos evangélicos, ele disse que não existe unanimidade dentro de igreja e que algumas são partidos políticos que querem vender o seu apoio nem que seja com um beija mão do candidato no pastor, o que ele se recusou a fazer.

Renato Amary, Alckmin, PT e João Leandro

Raul Marcelo tira o foco da “guerra santa” e o que ela trouxe junto, como a questão do aborto, como sendo o fator responsável por sua derrota, e entende que perdeu a eleição por três razões, explicadas por ele nessa ordem o que denota que o fato número 1 para o seu insucesso chama-se Renato Amary. O ex-prefeito, ex-deputado federal e ex-deputado estadual, explicou Raul, começou sua campanha há 4 anos e a péssima avaliação do prefeito Pannunzio gerou um sentimento de que o melhor era Renato. “Muita gente me falava, o Raul eu gosto de você, mas é melhor que o Renato volte. Ai eu dizia que ele não era candidato e o cidadão me falava, mas ele vai governar pelas mãos do Crespo, a gente precisa do Renato”, disse Raul Marcelo. Raul, porém, disse que quando o Renato anunciou que não seria candidato ele achou que não conseguiria dar ao Crespo a força que deu e se preparou para enfrentar o João Leandro, candidato do prefeito Pannunzio, onde faria uma campanha de alto nível sobre temas de Sorocaba e de como governar. Mas ai, explicou Raul, o Renato cercou-se de uma organização de campanha impressionante e levou o Crespo junto à vitória.

Outro fator, explicou Raul, foi a presença do governador Geraldo Alckmin na TV pedindo voto para o Crespo. Esse pedido de voto realinhou o PSDB que ficou neutro em Sorocaba e estava me ajudando, mas quando o governador apareceu, quem vota no PSDB entendeu que o voto deveria ser de Crespo e que não era para ficar na neutralidade.

Por fim, o que também pesou, explicou Raul, foi a confusão que fizeram de que PT e PSOL é a mesma coisa. O PSOL sempre foi adversário do PT, foi contra a política econômica da Dilma, nunca aceitou a isenção de IPI para os carros que gerou um caos no trânsito das cidades e que se tivesse colocado os R$ 90 milhões que deu à indústria de carro para a de transporte coletivo a realidade seria bem melhor. O PSOL foi contra a forma de tirar a presidente Dilma, pelo impeachment, mas isso não é apoiar o PT.

Oposição e bênção de Deus a Crespo

Raul Marcelo deixou claro que todos estamos no mesmo barco, ou seja, ele e todas as forças políticas e toda a sociedade sorocabana, e que a eleição foi o momento de quem fica no leme desse barco chamado Sorocaba. Ao escolher que Crespo conduza o destino da cidade pelos próximos 4 anos, automaticamente escolheu que o PSOL vá para a oposição e fiscalize o que Crespo prometeu como um Hospital Público na Zona Norte; Municipalização da Santa Casa, Passe Livre para todo mundo. Mas ai já começaram divergências, eu mesmo disse que nunca ouvi o Crespo dizendo que faria hospital na zona norte, ouvintes também, mas Raul insistiu que sim e que vai dar publicidade a tudo o que Crespo prometeu e ele vai cobrar.

Nas despedidas, Raul desejou boa sorte a Crespo, que vai seguir trabalhando para Sorocaba e região como deputado estadual e desejou que Deus abençoe Crespo em seu trabalho como prefeito.

Minha percepção

Raul Marcelo estava visivelmente mais leve, com uma aparência menos tensa, do que na última vez em que esteve na rádio Ipanema, 4 dias antes do pleito de 2º turno. O que é normal, diante do peso que uma eleição tem.

Mais que isso, senti Raul Marcelo olhando para o futuro. Ele minimizou as críticas de Crespo (que o chamou de menininho logo após eleito, que é alguém a ser combatido pela ameaça à família e bons costumes), minimizou a “guerra santa” e valorizou a política, campo do qual ele sente ter um domínio maior. Raul Marcelo, ao longo de toda a entrevista, deixou transparecer que está pensando em 2020. Ele quer comandar o leme do barco Sorocaba.

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