“Round 6”, apenas mais uma história de cinderela

Nem me lembro mais quando havia sido a última vez que um produto cultural havia se tornado um dos assuntos mais comentados entre as pessoas de meu círculo de amizades, que são de diferentes classes sociais, e isso voltou a acontecer agora com a “Round 6”, série de 9 capítulos da Netflix.

O argumento da narrativa envolve um grupo de pessoas que aceita um convite para um jogo que quando já estão participando descobrem que é de sobrevivência. Em comum, os 456 participantes têm uma vida atolada em dívida, pobreza, desilusão financeira.

Com o decorrer da narrativa, se descobre que 455 concorrentes vão morrer. E aí começa as questões que fazem da série uma das mais comentadas, compartilhadas e debatidas. Há os que abordem a similaridade com Jogos Vorazes e vejam plágio; os que se apeguem aos jogos infantis da disputa; os que vejam o mundo real faturar (o tênis usado pelos personagens virou febre de consumo no Brasil em que pese cada um custar R$ 290,00); os que encontram em “Round 6” os elementos de nossa existência.

Eu sou um deles.

A série mostra a pobreza em que significativa parcela dos sul-coreanos vive (se não for pior, igual ao do Brasil); mostra a ética do sul-coreano (cada jogador é um expoente desse aspecto) que para sobreviver pouco se importa com a morte do seu semelhante; mostra a falácia da meritocracia (ao contrário do “mundo real” que é perverso com quem teve menos oportunidades na vida, na série todos os 456 participantes têm as mesmas oportunidades, condições e chances de agir em pé de absoluta igualdade e, mesmo assim, o que se vê é um pensamento individual em detrimento ao coletivo).

O protagonista, o concorrente nº 456, um homem de 47 anos que perdeu o emprego há dez anos e vive com a mesada da velha mãe, e o antagonista, o concorrente nº 1, um senhor com câncer terminal, resumem o drama moral dos jogos, ou seja, o vale-tudo para se manter vivo ou o vale-tudo para fugir do tédio.

Por isso tudo, entendo que “Round 6” não passa de mais uma narrativa das chamadas “histórias de Cinderela”. A série consiste em ver a ascensão do herói (o homem que vive às custas da mãe), de origem humilde, enfrentando obstáculos até atingir a grandeza (único sobrevivente que fica com o prêmio de R$ 200 milhões adaptados ao Real) sem comprometer sua integridade ética e nem renunciar a suas virtudes. O protagonista não cede à vaidade e nem perde sua pureza e no final sua recompensa, que é o sucesso, não vem em forma de amor ou da felicidade eterna, mas de manter viva a chama de que no nosso mundo vale a pena ser bom, embora todos os indicativos sejam que os maus se dão verdadeiramente bem.

“Round 6” tem o mesmo esquema narrativo dos novelões da oito da Rede Globo, de tanto sucesso anos após ano, e arrisco em dizer que seu sucesso no Brasil, mesmo sendo uma série sul-coreana, se resume a ao fato das pessoas entenderem o que estão vendo. E gostam de terem entendido. E sentem-se segura em falar sobre o que entenderam da série. E por isso compartilham opiniões, comentam, discordam. Se emocionam. Se vêem representadas na tela em cada episódio.

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