Sorocabano mostra que é falsa a narrativa oficial sobre a facada em Bolsonaro

Quando a mãe de Joaquim Gil de Carvalho Filho passou na frente do prédio do jornal Diário de Sorocaba, na rua da Penha, no centro da cidade, em 1981, viu um cartaz na parede pedindo jovens jornalistas e sugeriu ao filho, um apaixonado por literatura, letras e ortografia da Língua Portuguesa que fosse até lá se candidatar ao seu primeiro emprego, ela não podia imaginar que nascia ali uma das carreiras mais promissoras do jornalismo investigativo do Brasil. Uma carreira que chega ao seu ápice neste momento, quando um documentário de sua autoria coloca em xeque a narrativa oficial sobre a facada no então candidato a presidente Jair Bolsonaro e afirma, categoricamente, que ela é falsa.

Depois de apenas um dia no setor Revisão, Victor Cioffi de Lucca, o fundador e diretor de O Diário de Sorocaba, pediu que ele fosse para a Reportagem. Quando foi registrar o funcionário na carteira de trabalho, iria colocar Redator, mas o jovem Joaquim, intuindo o que iria fazer pelo restante de sua vida, pediu que fosse registrado como Repórter. Mas redator é superior a repórter, alertou seo Lucca, e Joaquim insistiu que o registro fosse fiel ao que ele gostava e havia decidido fazer da vida, reportar o que é de interesse da sociedade.

Joaquim de Carvalho foi meu primeiro chefe de reportagem quando eu era apenas um foca (jovem e inexperiente jornalista), em 1985, no jornal Cruzeiro do Sul. Depois ele foi ao Estadão, Veja, Rede Globo. Fez reportagens para o Jornal Nacional. Em 2014 sua reportagem sobre a meia tonelada de pasta base de cocaína encontrada no helicóptero do então senador Zezé Perrela, principal financiador do então candidato à presidência da república, Aécio Neves, foi um divisor de água no jornalismo praticado no Brasil. A chamada velha imprensa, naquele momento, havia escolhido o seu caminho, o de se atrelar a um conceito ideológico de país deixando sua vocação, o jornalismo, em segundo plano. O que se vê de lá para cá é perda de credibilidade e o nascimento da nova imprensa com blogs e publicações em plataforma digitais com foco no leitor e no interesse público dos fatos que atingem a vida de cada um de nós.

Joaquim de Carvalho hoje é jornalista do portal Brasil 247, uma empresa privada que vive dos recursos que o Google e Youtube lhes paga em decorrência da audiência do canal. Acusado de ser petista, blog sujo, financiado com o dinheiro público, o 247 assim como outros veículos, com o fim do governo de Dilma, viu sua audiência triplicar nos governos Temer e Bolsonaro. E esse interesse vira audiência que vira retorno financeiro. É a nova mídia. Um veículo que busca fazer o antagônico da velha imprensa.

Joaquim é o autor do documentário “Bolsonaro e Adélio – uma fakeada no coração do Brasil” que superou a marca de 1 milhão de visualizações menos de um mês após seu lançamento. O filme (https://www.youtube.com/watch?v=vOcBT2js54U&t=605s), lançado no começo de setembro, mostra as contradições da investigação sobre o episódio ocorrido em Juiz de Fora (MG) no dia 6 de setembro de 2018, que foi crucial para que Jair Bolsonaro chegasse à presidência da República e evidencia que a narrativa do episódio é falsa. Não a facada em si, mas a narrativa dela é falsa. Num futuro momento, quando for lançada a parte 2 do documentário, é possível que o ato seja questionado. Mas a narrativa oficial, a péssima investigação da polícia sobre o caso, a ligação de Adélio com Carlos, o filho de Jair Bolsonaro, sua afinidade ideológica com o bolsonarismo estão nesta primeira parte.

Toda essa história fez parte do bate-papo que tive hoje ao vivo, durante uma hora e dez minutos, com Joaquim de Carvalho no programa O Deda Questão na radioweb 365 (https://www.youtube.com/watch?v=hJVbAfuhIAQ). Vale a pena ver e conhecer um pouco mais sobre o momento pelo qual passa a imprensa brasileira a partir da visão de um dos principais jornalistas investigativos do Brasil. Ganhador de prêmios como o Essa e Vlademir Herzog, Joaquim de Carvalho é finalista neste ano do Prêmio Comunique-se 2021.

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