Última mariposa

Compartilhar

Uma das mais impressionantes lembranças que tenho da minha infância é a parede da casa de esquina oposta a de meus pais, onde eu morava, no cruzamento das ruas Souza Moraes com Moreira Cabral, na Vila Santana, lotada das mais variadas cores, tamanhos e formatos de mariposas que chegavam ali, vindo sei lá de onde, mas penso que as árvores que ainda existiam nos quintais das casas que, curiosamente, também eram de terra, ajudavam a vida das mariposas. Elas chegavam ali atraídas pela luz do poste de iluminação pública.

Me impressionava, mas não incomodava, a não ser quando alguma mariposa desorientada atingia o cabelo de alguém e um bom tapa a mandava para longe e quase sempre ela acabava morta porque uma asa se quebrava e ela ficava no chão fazendo um zunido horrível e, então, algum menino, não me lembro de menina fazer isso, pisava na mariposa para acabar com aquele incômodo barulho e um creme amarelo-esverdeado saia de dentro dela. Ninguém ficava com nojo. Não que eu me lembre. 

Não havia hora certa para as mariposas aparecerem, mas acontecia exatamente no lusco-fusco quando ficava mais escuro que claro e o sensor acendia a lâmpada de mercúrio, assim se falava daquelas lâmpadas. E não tinha hora para elas irem embora, mas o fato é que elas não ficavam mais do que duas horas ali o que significa dizer que por volta das nove da noite, mesmo com as lâmpadas acesas, elas iam embora. E isso também não acontecia o verão todo, mas apenas por algumas semanas, no final da estação, o que faz pensar que elas estavam ali para se acasalar e reproduzir. É o que acho, por dedução lógica, nunca estudei a vida das mariposas. Aliás, nem sei o que são mariposas além do fato de serem insetos muito mais feios do que as borboletas.

Numa época de minha infância, tinha 11 ou 12 anos, li o livro “Inocência”, de Visconde de Taunnay, onde o personagem Cirino tinha como disfarce (fazia todo sentido na trama) caçar e colecionar borboletas, fixando elas num quadro com alfinete. Aquilo foi eletrizante para mim. Eu queria fazer o mesmo e só não levei adiante a empreitada porque ela exigia uma habilidade que nunca tive e toda vez eu destruía com meus dedos as frágeis asas coloridas delas.

Ainda vejo uma ou outra borboleta pela rua, mas mariposa, não. Como não vejo mais pardais, também. Hoje há, seguramente, mais maritaca do que pardal nessa cidade toda, 99% seguramente, cimentada ou asfaltada com raras árvores, mais quente que sempre foi.

Mas ainda assim existem mariposas e eu sei disso porque uma delas estava no apartamento onde moro, no centro, no sétimo andar, na parede da cozinha. Então ouvi um som de algo sendo espirrado e fui até a mulher que trabalha fazendo faxina e ela estava com um tubo de aerossol na mão e me disse: Bicho nojento. E saiu para a área de serviço e eu fiquei olhando a mariposa se debatendo em sua lenta morte no chão branco da cozinha. A química do inseticida encolheu a mariposa e seus restos estavam ali sob meu olhar quando a mulher se abaixou e com uma folha de papel toalha e tirou o cadáver dali, me enxotando: O senhor me dá licença que eu já estou atrasada.

Voltei para a poltrona, com o livro “Fugitiva”, de Alice Mumro, em mãos pensei: E se essa era a última mariposa? Triste fim!